quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Onde está "la noblesse"?

Uma língua em que pano de prato é serviette de cousine é realmente très chic. Talvez essa élégance dê um ar de nobreza a uma das mais cruéis práticas e delírios gastronômicos: o foie gras. Como é que alguém pode dar uma superalimentação engordurada para patos e gansos e aguardar calmamente até que lhe estourem os fígados para depois degustá-los como um prato raffiné?
Estou fazendo um baita esforço, com a ajuda da minha incansável amiga vegana Adriana Lisboa, para aderir pelo menos ao vegetarianismo. Comecei eliminando a carne vermelha, depois o frango, depois o peixe e agora, dia a dia, estou buscando alternativas que não me façam sentir vergonha do que como.
O príncipe Charles, segundo O Globo de hoje, proibiu o consumo de de foie grass em seus domínios. Quanto à caça ou consumo de "carnes nobres", tudo bem, it's normal.
I think that c'est tout une belle m...!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Mulheres fantásticas: Yeda Schmaltz



Muro da casa da Yeda em Goiás


Ainda dói falar da Yeda Schmaltz, que conheci nos idos de 1986 e que se dizia da geração de mil novecentos e Pearl Harbor. Poeta elogiada por Drummond, premiadíssima, professora de Estética da Universidade Federal de Goiás, foi ela que se apresentou a mim e de uma maneira inesperada. Um dia eu estava numa tristeza muito grande e de molho na cama, quando chegou pelo correio um livro. Abri-o. Vinha de uma poeta que não conhecia com uma dedicatória delicada. Era Yeda Schmaltz entrando redentora na minha tristeza com sua Alquimia dos Nós. Li de uma vez, vorazmente, e selei ali fidelidade. No outro dia escrevi para ela e depois nos falamos por telefone. E as conversas passaram a ser freqüentes. Ela enviou outros livros e alguns poemas me pegaram de tal jeito que os musiquei. Cantei ao telefone, fizemos planos. Não cheguei a gravá-los, mas estou pensando em fazê-lo. Posto aqui Cavalo de pau e Anima (que eu musiquei) e sua frase interface com a poesia de Drummond. Yeda faleceu em 2003.

"Sou maior que o mundo porque ele cabe inteiro nos meus olhos"

CAVALO DE PAU

Quando amo, sou assim:
dou de tudo para o amado
a minha agulha de ouro,
meu alfinete de sonho
e a minha estrela de prata.

Quando amo crio mitos,
dou para o amado os meus olhos,
meus vestidos mais bonitos,
meus livros mais esquisitos,
Meus poemas desmanchados.

Vou me despindo de tudo:
meus cromos, meu travesseiro
e meu móbile de chaves.
Tudo de mim voa longe
e tudo se muda em ave.
Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando:
um pandeiro de cigana
com mil fitas coloridas;
de cabelo envoaçando,
a Vênus que nasceu loura.
(E lá vou eu navegando.)

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando,
enchendo-se os braços curtos
e o amado vai se inflando.
O que mais lamento
e o que mais me espanto:
o amado vai se inflando
não dos mitos, mas de vento
até que o elo arrebenta
e o pobre do amado estoura.
(Nenhum amado me aguenta.)


ANIMA

Os homens não me entenderam
me quiseram freira ou prostituta
me esteriotiparam
nunca me aceitaram
no que sou de santa e puta.

Só fizeram mesmo foi trair
os homens que não entenderam o amor
que abre o coração
junto com as pernas.
Escrevo com o meu corpo
sobre este veneno de cobra
que os homens me impuseram.
Pois os amei, os homens
que me sujaram
e me aborreceram
com suas gravatas,
e suas bravatas.
Igual a meu pai, que me batia
com o cinturão de soldado,
e me fez civil
pra sempre.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Sexta etimológica

Posto aqui, conforme anunciei anteriormente, a etimologia apresentada pelo Helênio no programa Comentário Geral, que vai ao ar todas as quintas-feiras, às 22h, na TVE BRASIL. A palavra da semana foi:

LADO

O significado básico de lado é "parte lateral de alguma coisa em relação ao centro e à outra parte". Por exemplo: “o lado esquerdo e o direito de um objeto, o lado de trás e o da frente, o de cima e o de baixo” e assim por diante.

Lado se originou de latu do latim vulgar.

O radical de lado está presente em ladear (que é “correr ao lado”) e, por incrível que pareça, em ladeira, que “ladeia um morro”. Esse radical apresenta às vezes a forma later, proveniente do latim clássico, daí lateral e colateral, por exemplo. As palavras em latim se declinam, isto é, mudam de terminação conforme a função que exercem na frase – de sujeito, objeto direto, vocativo etc. É graças a isso que em latim clássico essa palavra pode assumir formas como latus, lateris, latera, lateribus etc. Daí é que vem a variante later desse radical.

Outro detalhe interessante é que há em português palavras vindas do latim vulgar, e que se alteraram com o passar dos séculos, na boca do povo (chamam-se formas populares). É o caso de lado, ladeira e ladear, com “d”. E outras que vieram diretamente do latim clássico, introduzidas na língua pelos intelectuais. Denominam-se formas eruditas. É o caso de lateral e colateral, com “t” e com aquele “e” seguido de “r”.

O OUTRO LADO...



A palavra da próxima semana será "PROIBIDO"

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Programa imperdível

Se possível fosse, assitiria a todos, mas com certeza vou tentar estar no maior número possível de espetáculos.


MÚSICA NO MUSEU – Ano XI
Concertos de Verão
Fevereiro 2008


DIA 20 - quarta-feira – 12:30. MUSEU DA REPÚBLICA Rua do Catete, 153 – Catete Capacidade:80 lugares Músico: Bóris Marques, piano Programa:Chopin, Lizst, Haendel, Ernesto Nazareth
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DIA 21 - quinta-feira – 12:30hs MUSEU da República Rua do Catete, 153 - CateteCapacidade: 80 lugares. Músico: Trio Uno (Cláudia Marques, piano, Gabriel Mateos, viola e Jurin Moreira, percussãoPrograma: Tributo a Piazzolla
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DIA 22 – sexta-feira – 15h Centro Cultural Justiça Federal Av. Rio Branco, 241
Capacidade: 142 lugares Músico:Alexsander Chamrelli, piano
Programa: Chopin, Handel.
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DIA 24 – domingo – 11:30 MEMORIAL GETULIO VARGAS Praça Luis de Camões s/no- Glória. Capacidade: 116 lugares Músico: Madrigal Nova Harmonia Programa: Mendelshon, Brahms, Padre José Maurício_________________________________________________
DIA 25 - segunda-feira – 18:00.CASA DE CULTURA LAURA ALVIM Av. Vieira Souto 176.Capacidade: 80 lugares.Músico: Grupo Vocal-Instrumental MÚSICA SURDA (Andréia Pedroso (voz), Antonio Jardim (violão de 6 cordas), Artur Gouvêa (violão de 6 cordas) e Eduardo Gatto (violão de 8 cordas).Programa: O repertório é de canções inéditas, compostas pelo grupo a partir de poemas de grandes autores: Camões, Cecília Meireles, Dante Milano, Drummond de Andrade, Garcia Lorca, e novos expoentes da poesia Adriano Alves, Fabiano Hollanda e Diego Braga.
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Dia 26- terça-feira- 18:00. MUSEU DO EXERCITO- Forte de Copacabana. Praça Coronel Eugenio Franco, no. 1- Posto 6- CopacabanaCapacidade: 150 lugares.
Músico:. Conjunto Pedra Lispe (Alexandre Bitencourt, flautas, Rudá Brauns, bandolim, Bruno Reis, viola, Maria Clara Valle, violoncelo e Diego Zangado, percussões.
Programa: Guerra Peixe, Capiba, Villa-Lobos.
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DIA 27 - quarta-feira – 12:30hs.MUSEU DA REPÚBLICA Rua do Catete, 153 – CateteCapacidade: 80 lugares Músico:Angela Passos, piano. Programa: Beethoven, Schubert__________________________________________
DIA 28 - quinta-feira – 12:30hs MUSEU da República Rua do Catete, 153 - Catete Capacidade: 80 lugares Músico: Maria Luiza Colker, piano e Bernardo Katz, violonceloPrograma: Beethoven, Rachmaninov, Schuman
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Dia 29 - sexta-feira - 12:30hs
Museu histórico Nacional
Praça XV de Novembro, s/n° - Centro
Capacidade: 200 lugares
Músico: Angela de Carvalho, voz - Sergio Lavor, voz e piano e Joabe Ferreira, voz e piano.
Programa: Árias da ópera (Puccini, L. Weber, Carlos Gomes e Verdi).

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Mulheres fantásticas: Adélia Prado

Pretendo trazer para o blog, toda semana, a arte de mulheres fantásticas em todos os campos da criação. Começo pela delicadeza poética de Adélia Prado, num diálogo intertextual com um outro mineiro que igualmente habita meu carinho.

Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
inauguro linhagens, fundo reinos
_ dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Como e quando interferir no comportamento lingüístico do aluno?


Um dos traços distintivos das reflexões do Helênio é que ele, ao contrário de muitos especialistas que apenas apontam problemas no ensino da língua, procura sempre buscar soluções. Posto aqui um de seus artigos, que traz uma visão bastante lúcida sobre "como e quando interferir no comportamento lingüístico do aluno".


1. Introdução

Há uma gama de atitudes a respeito da interferência na linguagem do aluno, que vão desde o normativismo extremo até o laissez-faire radical. Ao primeiro equivale o já desgastado prescritivismo tradicional, fundado na crença em uma língua homogênea e monolítica, segundo a qual o que não é português formal culto não é português. A oposição a essa atitude se vem exercendo há pelo menos sete décadas, desde a histórica Semana de Arte Moderna de 1922.
O outro extremo (atitude laissez-faire) baseia-se no mito romântico da espontaneidade da linguagem, segundo o qual não se deveria interferir no comportamento lingüístico do estudante, nem lhe ensinando técnicas narrativas, argumentativas, poéticas etc., nem corrigindo sua linguagem. Boissinot (1994:11) critica a "ideologia neo-romântica da espontaneidade do sujeito falante, da liberação da palavra, incompatível com uma abordagem técnica e metódica da arte do discurso" ["... une idéologie néo-romantique de la spontaneité du sujet parlant, de la libération de la parole, incompatible avec une approche technique de l’art du discours"].
Os dois extremos, como sempre, estão equidistantes da verdade. O que se pretende aqui é precisamente operacionalizar o meio-termo entre eles, oferecendo ao professor critérios que lhe permitam decidir quando deve e quando não deve corrigir a linguagem de seus alunos, definindo assim o espaço que cabe à norma gramatical dentro de um ensino que leve a um uso lingüístico atual e eficiente.
Outro esclarecimento: Este trabalho NÃO é behavorista, apesar de operar com conceitos como comportamento, hábito e similares. A esse respeito, nossa visão se aproxima da de Bronckart (1999:41), segundo a qual é "a ação como tal, no conjunto de seus componentes mentais e comportamentais, que se constitui como o objeto da psicologia".
Não se pode negar que no ensino de línguas os automatismos verbo-motores desempenham um papel importante. O que ocorre é que, numa pedagogia behaviorista, a aprendizagem lingüística se limitaria à aquisição de tais automatismos e hoje sabemos que nem tudo no ensino – seja da língua materna do aluno, seja de línguas estrangeiras – se restringe ao binômio estímulo – resposta. Muito da aprendizagem dos conceitos necessários à metalinguagem utilizada no ensino da língua, por exemplo, consiste na conscientização daquele saber lingüístico inato (portanto inconsciente) de que fala Chomsky, através de uma metodologia obviamente "mentalista". Ao comportamento o que é do comportamento, à mente o que é da mente.

2. Falado e escrito / formal e informal

O professor de Português se vê com freqüência diante do seguinte dilema: levar o aluno a empregar uma linguagem "correta", mas excêntrica, ou aconselhá-lo a falar como a comunidade espera, mas com uma espécie de "sentimento de culpa" por haver "traído" a gramática?
Para resolver esse impasse se poderia, à primeira vista, propor a obediência à norma na escrita e sua flexibilização na fala, o que, no entanto, seria ainda inexato. Na verdade, a dicotomia correta é formal versus informal e não escrito versus falado. Em circunstâncias formais, a comunidade espera que se empregue, seja escrevendo ou falando, a língua-padrão (cf. ing. standard language), entendida aqui como a variedade formal culta – e até certo ponto supra-regional – do idioma, que corresponde, em parte ao menos, à língua descrita pela gramática escolar. Em situações informais, ao contrário, seja na fala ou na escrita, a expectativa da comunidade é que se empreguem as variedades informais da língua. Em outras palavras: o binômio decisivo para a obediência à norma gramatical é o referente ao grau de formalidade da comunicação e não à natureza oral ou escrita desta.
Não se conclua daí, entretanto, que não haja correlação entre modalidade escrita e formalidade, por um lado, e entre informalidade e fala, por outro. De fato, a comunicação escrita tende a ser mais formal do que a falada.
Na verdade, a oposição formal/informal é uma simplificação didática. Há no mínimo quatro graus de formalidade (registros) no português do Brasil: o ultraformal, o formal, o semiformal e o informal, de que são exemplos, respectivamente (no uso oral da língua), o discurso solene de um paraninfo numa cerimônia de formatura, uma conferência, uma conversa entre cientistas que se conhecem há muito tempo sobre assunto de sua especialidade (que não ficará totalmente formal, pela intimidade existente entre os interlocutores, nem totalmente informal, pela natureza "intelectual" do assunto tratado) e a conversação diária. Exemplos na modalidade escrita: do ultraformal – certos textos jurídicos e um ou outro texto burocrático; do formal – um verbete de enciclopédia; do semiformal – uma crônica esportiva (na mídia immpressa); do informal – um bilhete.
Ainda numa visão um tanto esquemática, mas didaticamente necessária, diríamos que a necessidade de obediência à norma gramatical existe no registro ultraformal e no formal, não existindo nos dois últimos.
Além do grau de formalidade, outros fatores interferem na escolha do tipo de linguagem adequado a cada situação, a saber, o status dos interlocutores, o local, o assunto, o gênero textual (o que é virtude num gênero pode ser defeito em outro), a modalidade escrita ou oral e a natureza monolocutiva ou interlocutiva, privada ou pública etc. da comunicação. O princípio geral, porém, é sempre o mesmo: o da adequação.

3. Situação do Brasil

Nossa condição de ex-colônia contribui para que a diferença entre formal e informal seja maior no português do Brasil que no de Portugal, como é maior em Marselha que em Paris, no Texas do que em Oxford, em Buenos Aires do que em Madri e assim por diante, ou seja, para quem não vive na região cujo dialeto serviu de base à variedade padrão do idioma a distância entre formal e informal é realmente maior. Não chegamos ao extremo da diglossia no Brasil, mas temos de dominar variedades lingüísticas estruturalmente mais diferenciadas que as utilizadas por um falante português. Não há dúvida, o desafio dos professores de Português no Brasil é maior que o de seus pares portugueses. Esse "privilégio", por assim dizer, de quem vive na área geográfica berço da língua padrão é um fato, que não cabe lamentar nem exaltar, mas "administrar", a não ser que se optasse por uma política lingüística xenófoba, como a dos antigos adeptos da tese da "língua brasileira".

4. A "informalização" do registro formal na atualidade

A mídia vem há várias décadas "informalizando", até certo ponto, o português do Brasil. Graças à televisão, ao rádio e à mídia escrita, o registro formal de hoje é talvez o semiformal de outros tempos e o ultraformal caminha a passos largos para o desuso. O Manual de estilo da Editora Abril, por exemplo, contra-indica a mesóclise (p. 55), cujo uso se limita possivelmente, nos dias de hoje, à linguagem jurídica e a textos acadêmicos de algumas áreas.
Cabe, pois, ao professor ter sensibilidade para perceber – dentre as formas legitimadas pela gramática escolar – quais estão caindo em desuso e priorizar as que efetivamente ocorrem no português formal real do Brasil. Por exemplo: embora a gramática normativa admita, facultativamente, as formas João o comunicou a nós e João no-lo comunicou, o professor pode habilmente "silenciar" a respeito da segunda, menos usual no Brasil. Num ensino centrado em textos atuais, essa ênfase ao padrão real se torna automática, já que em tais textos são raras ou simplesmente inexistem as opções mais artificiais.

5. O espaço concedido ao registro formal e ao informal no ensino da língua

Nossa proposta tem em comum com o ensino tradicional a ênfase à língua-padrão. Difere dele, no entanto, na medida em que "reabilita" as variedades não padrão da língua. Difere também – é bom que se diga – das propostas "modernosas", como a subjacente a um livro didático de Português que nos chegou às mãos há algum tempo, cujos textos se encontravam todos no registro informal, num evidente desequilíbrio entre corpus e objetivos.
A utilização de textos formais tem como objetivo – entre outros – a aquisição pelo estudante das construções e do vocabulário típicos do registro formal e o uso de textos informais tem como propósito sensibilizá-lo para a "respeitabilidade" da linguagem coloquial, que o aluno, aliás, já domina antes de ingressar na escola. Como essa sensibilização não requer contacto com um corpus muito extenso, ao contrário da aquisição de léxico e estruturas da língua-padrão, que exige o convívio com uma quantidade bem maior de textos, recomenda-se mais ênfase ao português formal do que ao coloquial, pelo menos nas séries mais adiantadas, refletindo-se essa ênfase na proporção do número dos textos formais para uso em aula, em comparação com o dos informais.

6. Tipologia dos erros de comunicação

Em qualquer país, o aprendizado da variedade formal culta do idioma se dá gradualmente e na fase de aquisição dessa variedade o aluno comete erros. Num país como o Brasil existe ainda a agravante de que a distância entre formal e informal é, como vimos, bastante acentuada. Se o erro de linguagem existe, é pedagogicamente desejável que seja corrigido, isto é, que se tome um conjunto de providências didáticas destinadas a levar o aluno a adquirir as habilidades cuja não aquisição o leva a errar, o que não se deve confundir com uma atitude prescritiva grosseira. Tal "correção" pode consistir inclusive em atividades que desenvolvam prazerosamente o hábito da leitura, pondo o aluno em contacto com a língua-padrão.
Para operacionalizar essa correção (no sentido amplo), faz-se necessário repensar o conceito de erro de linguagem. Proporíamos que se passe a entender como tal não necessariamente o que a gramática escolar condena, é claro, mas o que compromete a eficiência da comunicação. Denominaremos corretos, portanto, os hábitos lingüísticos que o professor deve levar o aluno a cultivar e incorretos os que devem ser "corrigidos". Termos como erro e seus afins – correto, incorreto, incorreção etc. – embora portadores de conotações preconceituosas culturalmente arraigadas, podem tornar-se bastante operacionais, desde que os redefinamos. Do nosso esforço de redefinição, ou seja, de uma busca de critérios consistentes e pedagogicamente úteis para distinguir o correto do incorreto (neste novo sentido), acabou resultando uma tipologia dos erros de comunicação, que passamos a expor, a partir do comentário dos seguintes casos concretos:
(1) emprego do verbo ir, na fala informal, seguido de complemento introduzido por em: fui em São Paulo(2) idem, num bilhete dirigido ao marido pela esposa(3) idem, numa carta comercial(4) emprego de ênclise no início da frase (exemplo: parece-me que...), entre interlocutores de idêntico status, que se conhecem há muito tempo, numa situação de lazer(5) erro ortográfico num exercício de redação(6) uso de construções como "Pedro me entregou-o" numa redação escolar

(1) e (2) – ou seja, ir em na conversação diária e num bilhete – embora incorretos para a tradição escolar, estão corretos no sentido dado aqui ao termo, já que funcionam bem na comunicação, preenchendo os requisitos da inteligibilidade e da adequação.
Com relação a (3) – ir em numa carta comercial – proporíamos que se fizesse o mesmo que o professor tradicional fazia, ou seja, que se "corrigisse" a regência do verbo, já que o registro adequado para o gênero carta comercial é o formal.
Não pretendemos discutir como corrigir salvando a face do aluno. Limitamo-nos a afirmar que é preciso capacitá-lo a adequar a linguagem ao gênero do texto. Embora reconheçamos que é importante fazer isso sem ferir a suscetibilidade do estudante, não pretendemos aqui, por não ser esse o objetivo do trabalho, sugerir estratégias para a preservação da auto-estima do aluno.
Numa situação como (4) – emprego de pronome enclítico (parece-me) numa situação informal – nossa proposta é de certo modo mais exigente que a tradicional, uma vez que "corrige" o que ela aceitaria. De acordo com a tradição escolar, não há nada de censurável no comportamento lingüístico desse falante. Na verdade, porém, ele cometeu uma inadequação, empregando linguagem formal numa situação informal. É o chamado pedantismo.
A julgar pelos exemplos examinados até aqui, correto pareceria sinônimo de "adequado", só existindo erro de linguagem em termos relativos, ou seja, todo erro consistiria no emprego do registro informal em situações formais ou vice-versa. A existência de palavras e frases inaceitáveis independentemente da situação comunicativa, por conseguinte, pareceria, à primeira vista, impossível.
A questão, no entanto, não é tão simples. Não se trata meramente de substituir a dicotomia tradicional correto / incorreto por formal / informal ou o conceito de correção pelo de adequação. Há formas incorretas em si mesmas, ou sejam, erros em termos absolutos. É o caso de (5), por exemplo: erro ortográfico. A infração às regras da ortografia é sempre um erro, qualquer que seja o gênero textual em que ocorra. Também neste ponto coincide a posição tradicional com a do ensino que estamos propondo.
Esse tratamento especial concedido à ortografia deve-se aos seguintes fatos: (1.o) o sistema ortográfico é o único aspecto do idioma inteiramente adquirido na escola, o que o torna mais artificial e rígido que os demais subsistemas da língua; (2. o) a ortografia é matéria de lei no Brasil; (3. o) ela diz respeito exclusivamente à comunicação escrita. Esse conjunto de atributos a impede, mesmo numa proposta flexível de ensino, de ser tratada com a mesma flexibilidade que os demais subsistemas. No aprendizado da ortografia não faz sentido, pois, o binômio formal/informal. Se determinada palavra se grafa com "ch", não é por estar empregada num texto informal que se passará a escrever com "x". A grafia tem de ser a mesma, seja num bilhete ou num relatório técnico.
A inaceitabilidade de uma forma lingüística pode, portanto, ter caráter relativo (quando essa forma, embora empregada inadequadamente, não for intrinsecamente incorreta, sendo, portanto, aceitável em outras situações) ou ser de natureza absoluta (erro propriamente dito), quando a palavra ou seqüência de palavras empregada é em si incorreta, independentemente da situação em que tenha sido usada.
O erro em termos relativos (ou inadequação) é, pois, o emprego, em situações inadequadas, de uma forma lingüística que, na proposta aqui veiculada, nada tem de errôneo em si mesma, embora possa, como no exemplo (3), ser tratada como incorreta pela tradição escolar.
Outro esclarecimento: na denominação erro em termos absolutos ou abreviadamente erro absoluto, o adjetivo absoluto nada tem a ver com a idéia de "erro grave". Os termos absoluto e relativo têm, na terminologia que estamos sugerindo, o mesmo sentido com que os matemáticos os empregam quando falam em valor absoluto e valor relativo de um algarismo.
Quanto a (6) – "Pedro me entregou-o" – é um exemplo do que denominamos erro absoluto não ortográfico. Nesse caso o professor deve corrigir a linguagem do estudante, independentemente da situação, embora não se trate de problema ortográfico. O equivalente informal de (6) seria Pedro entregou ele pra mim (ou Pedro me entregou ele) e o formal seria, no português do Brasil, Pedro o entregou a mim (Pedro mo entregou é uma construção lusitana). Logo a frase do aluno não é formal nem informal, e sim incorreta. A opção pelo pronome oblíquo o e ao mesmo tempo pela ênclise, ambos típicos do registro formal, é, por si só, um índice da intenção do falante de empregar esse registro.
Quando um usuário de uma língua, que não domina sua variedade formal, emprega, na tentativa de exprimir-se nessa variedade, formas lingüísticas que não são formais nem informais, mas tentativas malsucedidas de usar o registro formal, tem-se o que denominamos erro absoluto não ortográfico.
O erro de linguagem, por conseguinte, pode ser:
(a) RELATIVO E DECORRENTE DO "REBAIXAMENTO" INADEQUADO DO REGISTRO – exemplo (3);
(b) RELATIVO E DECORRENTE DA "ELEVAÇÃO" INADEQUADA DO REGISTRO – exemplo (4);
(c) ABSOLUTO ORTOGRÁFICO – exemplo (5);
(d) ABSOLUTO NÃO ORTOGRÁFICO – exemplo (6).
Uchoa (1996) propõe uma classificação um pouco diferente, mas também muito útil. Segundo ele a incorreção pode decorrer: (a) de falhas na capacidade para usar a linguagem de modo geral (inconsistências, contradições, fragilidade argumentativa etc.); (b) de falta de domínio da língua propriamente dita (português, japonês, espanhol etc.) – exemplo: ênclise com os futuros do indicativo em português; (c) da inadequação ao contexto. As duas primeiras categorias equivalem ao nosso erro absoluto e a última, ao relativo.

7. Erros textuais

Nossa classificação não se limita ao nível frástico, sendo aplicável também ao nível textual, como se pode ver pelos exemplos de erros (relativos e absolutos) de natureza textual que passamos a examinar:
(7) erro relativo de coesão textual (rebaixamento do registro) – A repetição pura e simples do sintagma nominal, típica da linguagem informal e muito freqüente na fala, quando empregada em gêneros textuais que exigem mecanismos de coesão mais complexos, pode classificar-se como erro relativo de coesão textual: inadequação do mecanismo coesivo ao gênero textual, à situação comunicativa etc.
(8) erro absoluto de coesão textual – Um exemplo de erro absoluto de coesão pode ser a infração às regras responsáveis pela relação do pronome com seu referente textual. Um caso muito comum desse tipo de infração é a NÃO realização da concordância transfrástica, como neste exemplo, ocorrido numa redação escolar:
"A partir disso, essas pessoas passam a ter uma dívida de gratidão com esse ‘amigo’. Ele o auxiliou numa hora em que o Estado se manteve inerte." Como essas pessoas é feminino plural, o pronome deveria ser as.
Outras vezes o aluno, diante da repetição de um sintagma com referentes distintos, substitui a segunda ocorrência por um pronome, o que constitui também um erro (absoluto) de coesão textual, já que um pronome só pode substituir a segunda ocorrência de um constituinte textual repetido se o referente for o mesmo. É o caso, por exemplo, do fragmento abaixo:
"Nada como um dia após o outro. Um dia chega em que a sorte nos sorri e aí é preciso saber aproveitá-lo."
Se substituirmos, nesse exemplo, a segunda ocorrência do sintagma repetido por um pronome, teremos "Nada como um dia após o outro. Ele chega em que a sorte nos sorri e aí é preciso saber aproveitá-lo" – o que não faz sentido, porque o referente do primeiro sintagma um dia é "um período qualquer de vinte-e-quatro horas", ao passo que o do segundo é "um período específico de vinte-e-quatro horas especial na nossa vida". Por isso o segundo não pode ser substituído pelo pronome. Erros desse tipo costumam ocorrer em redações.

8. Impropriedade lexical

Outra categoria de erro de linguagem em relação à qual a terminologia acima se mostra bastante operacional é a impropriedade no uso do léxico. Esse tipo de incorreção, muito freqüente – como demonstra Bastos (1985) – em textos produzidos por universitários, pode decorrer, segundo temos observado (para citar apenas alguns fatores):
(a) da "mistura" inadequada de registros;(b) da substituição de constituintes de expressões idiomáticas;(c) da incompatibilidade entre as especificações semânticas de vocábulos contidos no mesmo sintagma ou na mesma sentença;(d) da incompatibilidade entre a orientação argumentativa do texto e a natureza pejorativa ou meliorativa dos itens lexicais escolhidos;etc.
Como não é nosso propósito tratar exaustivamente da inadequação vocabular, limitamo-nos a essas quatro subcategorias, lembrando que (a) equivale a erros relativos e (b), (c) e (d), a erros absolutos. Seguem-se alguns exemplos comentados:
(9) subcategoria (a) – "mistura" de registros: erro relativo – O emprego de itens lexicais típicos do registro informal numa situação comunicativa que requer o formal ou vice-versa é impropriedade lexical em termos relativos. Os sinônimos tapear, enganar e ludibriar, por exemplo, têm valores diferentes, sob esse aspecto, sendo o primeiro típico do registro informal; o segundo, neutro quanto ao registro e o terceiro, típico do formal, logo o uso de tapear num texto formal, ou o de ludibriar num informal seriam erros em termos relativos, ao passo que enganar pode ser empregado em princípio em qualquer texto.
(11) subcategoria (b) – substituição de constituintes de expressões idiomáticas: erro absoluto – Indivíduos que ainda não dominam a língua-padrão substituem às vezes, quando redigem, constituintes de locuções cristalizadas (expressões idiomáticas) por outros itens lexicais, sinônimos ou não, resultando daí uma forma inaceitável independentemente da situação em que ocorra.
Registramos algumas ocorrências desse fenômeno em redações de vestibulandos da UFRJ (1997). Por exemplo: "no meu achar" (no sentido de a meu ver), "costurando arestas" (em vez de aparando arestas), "levar à tona" (em lugar de trazer à tona) – como em "isso leva à tona problemas complicados" – e outros. Tais substituições são erros em termos absolutos, no sentido de que "desrespeitam" o próprio léxico da língua. Como a forma a meu ver se cristalizou, tornando-se um item lexical, o emprego de "no meu achar", "a meu enxergar" etc. seria uma infração da mesma natureza que protege-chuva (por guarda-chuva) ou quadro-preto por quadro-negro, caso alguém as viesse a cometer.
(11) subcategoria (c) – incompatibilidade de especificações semânticas: erro absoluto – Observando as frases Joana possui olhos verdes, Joana possui um sítio e Joana tem olhos verdes, nota-se que as duas últimas são plenamente aceitáveis, mas a primeira é um tanto "desajeitada".
Isso se explica pelo fato de que o verbo possuir seleciona complementos com a especificação semântica, digamos, [+Comercializável]. A especificação [-Comercializável] de olhos verdes é responsável pela inaceitabilidade da primeira frase. A subcategoria (c), portanto, pode classificar-se como erro absoluto, já que também ela independe da situação comunicativa.
Uma impropriedade como possuir olhos pode até passar despercebida, mas continua sendo verdade que essa seqüência é menos aceitável que ter olhos. Se, comparando as formas, observamos que a segunda é mais aceitável que a primeira, concluímos que esta não é plenamente aceitável. O fato de uma pequena desafinação numa sinfonia passar despercebida aos ouvidos de uma parte da platéia não significa que a execução tenha sido perfeita.
Não se deve confundir – repetimos – erro absoluto com erro grave. Certas incompatibilidades sêmicas podem ser sutis e pouco perceptíveis, mas não dependemos do contexto para as interpretarmos como incorreções, portanto, graves ou não, são erros absolutos. Observando-se (12) – abaixo – em que ocorre com grau mais alto de perceptibilidade o mesmo fenômeno que em (11) – conflito de especificações semânticas – se compreederá melhor esse fenômeno. O exemplo é artificial, mas, por isso mesmo, é ilustrativo:
(12) ainda subcategoria (c) – incompatibilidade de especificações semânticas: erro absoluto – Pedro bebeu uma pedra: beber "exige" complementos com a especificação, digamos, [+Líquido]. Como o sintagma uma pedra é especificado negativamente quanto a esse traço, a combinação fica insólita. Há semanticistas que tratam os estados da matéria – sólido, líquido e gasoso – como três especificações de um traço semântico gradual, mas para os objetivos de nossa análise esse pormenor é irrelevante, de modo que faremos abstração dele.
Embora não pretendamos aprofundar a questão do emprego metafórico das palavras, podemos adiantar que a existência de tal emprego não invalida a inclusão do conflito de especificações semânticas entre os casos de erro absoluto. Para dar conta da metáfora – e no ensino da redação há necessidade de uma abordagem que dê conta dela – faríamos uma ressalva: o conflito intencional de especificações, com um propósito comunicativo qualquer, não é erro; é metáfora. O estabelecimento de critérios para distinguir a discordância sêmica errônea da intencional e discursivamente válida, no entanto, seria uma verdadeira teoria da metáfora, que não pretendemos elaborar neste artigo. Por ora essa distinção ficaria por conta da intuição e do bom-senso.
(13) subcategoria (d) – incompatibilidade entre orientação argumentativa e escolha lexical: erro absoluto – Imaginemos que um texto cujo tema sejam os exílios políticos do período da ditadura militar brasileira, apesar de argumentar contra a ditadura e a favor dos exilados, se referisse a estes como "subversivos". Estaríamos diante de um erro absoluto de coerência textual: a orientação argumentativa do texto estaria indo numa direção e a escolha lexical (pejorativos e meliorativos), em outra, o que infringiria uma especie de "regra textual". Também neste caso, evidentemente, existe a possibilidade da infração permitida – em nome da ironia, do mascaramento de intenções etc. Essa infração está para (d), assim como a metáfora está para (c).
Os fenômeno (a) e (d) têm de ser detectados no nível discursivo, isto é, envolvem aspectos macroestruturais e situacionais, ao passo que (b) e (c) são de natureza microestrutural, podendo considerar-se frásticos. Sobre impropriedade lexical ver, além de Bastos (1985), Lima (1995).

9. Conclusão

Seria nula a utilidade do aspecto normativo do ensino da língua, num sentido amplo, se não existisse erro de linguagem, mas, como acabamos de ver, o erro existe, logo o que se deve combater não é necessariamente a faceta normativa do ensino, e sim o normativismo tradicional, fundado num conceito equivocado de correção lingüística. Na verdade, devemos corrigir de maneira absoluta os erros absolutos e de forma relativa os relativos, tratando aqueles como erros propriamente ditos e estes, como casos de inadequação.
A principal falha do normativismo tradicional consistia em procurar impor formas lingüísticas típicas do registro formal, em detrimento de suas equivalentes informais, tidas como errôneas. Tratava-se como incorreto, e não como informal, por exemplo, o emprego de ele como objeto, do pronome oblíquo no início da frase, de ter como verbo existencial, da chamada "mistura de tratamentos", de em com verbos de movimento, do imperativo com a flexão que no padrão escolar seria da segunda pessoa, mas associado ao tratamento você etc.
Certa vez um psicólogo disse, em entrevista a um órgão de imprensa, que o tabu do sexo deu lugar, em nossos dias, ao "tabu da ternura". Parafraseando esse psicólogo, poderíamos dizer que os tabus do ensino tradicional de Português deram lugar a novos preconceitos e barreiras mentais, que muitos professores e pesquisadores não percebem que têm. O mito de uma língua fixa e sem registros deu lugar ao tabu da interferência, gerando uma mentalidade segundo a qual quem fala em interferir no comportamento lingüístico do aluno é visto como adepto daquele mito antigo. Existe, no entanto, uma interferência construtiva.
Estas são ainda as linhas gerais da nossa proposta. Um maior detalhamento fica para outro trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BASTOS, Liliana Cabral (1985). Desvios lexicais em textos de alunos de terceiro grau da PUC-RJ. Relatório apresentado ao Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, janeiro, 1985.
BOISSINOT, Alain (1994). Les textes argumentatifs. Toulouse, Bertrand- Lacoste.
BRONCKART, Jean-Paul (1999). Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo, EDUC.
EDITORA ABRIL (1990). Manual de estilo. 7. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
LIMA, Mônica Paula de (1995). Propriedade lexical na relação verbo- argumentos: uma contribuição ao ensino de produção de textos. Rio de Janeiro, UFRJ, Faculdade de Letras, Dissertação de Mestrado.
UCHOA, Carlos Eduardo Falcão, (1996). A comunicação escrita: revendo a sua avaliação pela escola. Cadernos de Letras da UFF. Niterói, Instituto de Letras da UFF, 12: 24-32, jul-dez.1996.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Sexta etimológica

Conforme anunciei aqui, toda sexta-feira estarei postando no blog a etimologia da palavra apresentada pelo Helênio no programa Comentário Geral, TVE Brasil, que vai ao ar todas as quintas-feiras, às 22 horas. A palavra desta semana foi:

FRANCISCO

Francisco se originou do latim vulgar franciscu, que de início significava “relativo aos francos”, povo germânico que invadiu o norte da Gália nos séculos III e IV. É muito comum o nome de um povo se transformar em nome de pessoa, por isso Francisco acabou sendo usado como nome próprio masculino.

Como, na nova sociedade que se formou, resultante da união de francos e gauleses, os francos correspondiam à classe nobre, livre de impostos, o adjetivo franco acabou adquirindo o sentido de “livre”, e, como só as pessoas livres podiam dizer o que pensavam, franco passou a significar “sincero”, “não dissimulado”, daí franqueza, língua franca, que é uma língua usada livremente no comércio internacional, franquear, que significa “liberar”, entrada franca, que é a entrada livre, e assim por diante.

E por falar em Francisco...


E por falar em Francisca...


A palavra da próxima sexta-feira será LADO

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Pesar, imenso pesar!

Estou muito triste. Acabei de receber a notícia que meu querido amigo José Carlos Barcellos, professor de Literatura Portuguesa da UERJ e da UFF, faleceu. Minha amizade por ele vem de longa data. Foi meu aluno, brilhante, no Colégio de São Bento do Rio de Janeiro e brincava dizendo que se tornou professor por minha causa. Quem conheceu sabe a delicadeza, a competência e de que estou falando. Aqui no blog, nas postagens mais antigas, andei comentando sobre ele e outros alunos queridos do São Bento. Desolação.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

"Que triste são as coisas, consideradas sem ênfase!"

Recebi do fotógrafo Geraldo Kosinski esta foto da praia de Ipanema, Rio de Janeiro, tirada em dezembro de 2007, durante a comemoração dos 200 anos da Abertura dos Portos. Em mim fez-se imediata a presença de Drummond.

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que triste são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

A Flor e A Náusea.
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Volta do recesso e a sexta etimológica

Estradinha da Rapadura, onde caminho lavando a alma

Estou de volta de meu recesso em Raposo. Flores, pássaros, piscina de água mineral. Natureza... Desde a primeira vez que pisei nesse paraíso, nunca mais deixei de estar. Firmei raízes e fuga para meu cansaço urbano. Amo tudo lá, mas, mais que tudo, a inocência de poder existir sem medo. Seja por causa da Hélida, do "Seu" Hélio, da Cristiane, das Silvanas, do Zé Antônio, do Pepê, da Marciana, do Diamante... seja pelos pássaros, pelos bois, pelas borboletas brancas e amarelas, pelos vaga-lumes, seja pelo céu. Desejo muito criar uma sala de leitura lá e estou trabalhando nesse sentido . A qualquer hora, tenho certeza, acontece.


Na última quinta-feira foi a estréia do Helênio no "Comentário Geral" da TVE Brasil. O programa, que vai ao ar toda quinta, às 22h, não foi exibido durante o carnaval. A etimologia das palavras (o programa gira em torno delas) como comentamos aqui, fica a cargo do Helênio. A da semana passada foi a de PAI e da próxima semana será a de FRANCISCO. Vou postar aqui no blog, toda sexta-feira, a etimologia da palavra da semana, exatamente como foi apresentada por ele no programa. Aqui vai a primeira:

PAI:

O significado básico de pai é "homem ou animal do sexo masculino que gera outro ser da mesma espécie”.

Pai se originou do latim vulgar patre, que passou a padre, como é ainda hoje em espanhol. A partir do século XV, em português, a forma padre, passa a se limitar ao sentido de “sacerdote católico”, que é uma espécie de pai espiritual.

Padre
evolui para pade e depois para pae. A grafia com “e” permaneceu até a primeira metade do século XX, época em que se aboliu o “y”, o “k”, o “ph” etc. e em que se passou grafar “pai”, refletindo uma pronúncia com “i”, que já existia havia muito tempo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Os sete saberes necessários à educação do futuro

Alguma coisa de urgente precisa ser feita pela educação e considero lúcidas as sugestões de Edgar Morin. Posto aqui os pontos vitais apresentados por ele em sua obra Os sete saberes necessários à educação do futuro, publicada no Brasil pela Ed. Cortez. Os que lêem francês podem acessar diretamente o texto original aqui.

1- As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão

É impressionante que a educação que visa a transmitir conhecimentos seja cega quanto ao que é o conhecimento humano, seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e à ilusão, e não se preocupe em fazer conhecer o que é conhecer. De fato, o conhecimento não pode ser considerado uma ferramenta "ready made", que pode ser utilizada sem que sua natureza seja examinada. Da mesma forma, o conhecimento do conhecimento deve aparecer como necessidade primeira, que serviria de preparação para enfrentar os riscos permanentes de erro e de ilusão, que não cessam de parasitar a mente humana. Trata-se de armar cada mente no combate vital rumo à lucidez. É necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão.

2-Os princípios do conhecimento pertinente

Existe um problema capital, sempre ignorado, que é o da necessidade de promover o conhecimento capaz de apreender problemas globais e fundamentais para neles inserir os conhecimentos parciais e locais. A supremacia do conhecimento fragmentado de acordo com as disciplinas impede freqüentemente de operar o vínculo entre as partes e a totalidade, e deve ser substituída por um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos em seu contexto, sua complexidade, seu conjunto. É necessário desenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas essas informações em um contexto e em um conjunto. É preciso ensinar os métodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo.

3- Ensinar a condição humana

O ser humano é a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico. Esta unidade complexa da natureza humana é totalmente desintegrada na educação por meio das disciplinas, tendo-se tornado impossível aprender o que significa ser humano. É preciso restaurá-la, de modo que cada um, onde quer que se encontre, tome conhecimento e consciência, ao mesmo tempo, de sua identidade complexa e de sua identidade comum a todos os outros humanos. Desse modo, a condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o ensino. Este capítulo mostra como é possível, com base nas disciplinas atuais, reconhecer a unidade e a complexidade humanas, reunindo e organizando conhecimentos dispersos nas ciências da natureza, nas ciências humanas, na literatura e na filosofia, e põe em evidência o elo indissolúvel entre a unidade e a diversidade de tudo que é humano.

4-Ensinar a identidade terrena

O destino planetário do gênero humano é outra realidade-chave até agora ignorada pela educação. O conhecimento dos desenvolvimentos da era planetária, que tendem a crescer no século XXI, e o reconhecimento da identidade terrena, que se tornará cada vez mais indispensável a cada um e a todos, devem converter-se em um dos principais objetos da educação. Convém ensinar a história da era planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicação entre todos os continentes no século XVI, e mostrar como todas as partes do mundo se tornaram solidárias, sem, contudo, ocultar as opressões e a dominação que devastaram a humanidade e que ainda não desapareceram. Será preciso indicar o complexo de crise planetária que marca o século XX, mostrando que todos os seres humanos, confrontados de agora em diante aos mesmos problemas de vida e de morte, partilham um destino comum.

5 -Enfrentar as incertezas

As ciências permitiram que adquiríssemos muitas certezas, mas igualmente revelaram, ao longo do século XX, inúmeras zonas de incerteza. A educação deveria incluir o estudo das incertezas que surgiram nas ciências físicas (microfísicas, termodinâmica, cosmologia), nas ciências de evolução biológica e nas ciências históricas. Seria preciso ensinar princípios de estratégia que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo. É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas, em meio a arquipélagos de certeza. A fórmula do poeta grego Eurípedes, que data de vinte e cinco séculos, nunca foi tão atual: “O esperado não se cumpre, e ao inesperado um deus abre o caminho”. O abandono das concepções deterministas da história humana que acreditavam poder predizer o nosso futuro, o estudo dos grandes acontecimentos e desastres de nosso século, todos inesperados, o caráter doravante desconhecido da aventura humana devem-nos incitar a preparar as mentes para esperar o inesperado, para enfrentá-lo. É necessário que todos os que se ocupam da educação constituam a vanguarda ante a incerteza de nossos tempos.

6-Ensinar a compreensão

A compreensão é a um só tempo meio e fim da comunicação humana. Entretanto, a educação para a compreensão está ausente do ensino. O planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensão mútua. Considerando a importância da educação para a compreensão, em todos os níveis educativos e em todas as idades, o desenvolvimento da compreensão pede a reforma das mentalidades. Esta deve ser a obra para a educação do futuro. A compreensão mútua entre os seres humanos, quer próximos, quer estranhos, é daqui para frente vital para que as relações humanas saiam de seu estado bárbaro de incompreensão. Daí decorre a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e seus efeitos. Este estudo é tanto mais necessário porque enfocaria não os sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. Constituiria, ao mesmo tempo, uma das bases mais seguras da educação para a paz, à qual estamos ligados por essência e vocação.

7-A ética do gênero humano

A educação deve conduzir à “antropo-ética”, levando em conta o caráter ternário da condição humana, que é ser ao mesmo tempo indivíduo/sociedade/espécie.Nesse sentido, a ética indivíduo/sociedade/espécie necessita do controle mútuo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, ou seja, a democracia; a ética indivíduo/espécie convoca, ao século XXI, a cidadania terrestre. A ética não poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes com base na consciência de que o humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade, parte da espécie. Carregamos em nós esta tripla realidade. Desse modo, todo desenvolvimento verdadeiramente humano deve compreender o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana. Partindo disso, esboçam-se duas grandes finalidades ético-políticas do novo milênio: estabelecer uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e conceber a Humanidade como comunidade planetária. A educação deve contribuir não somente para a tomada de consciência de nossa Terra-Pátria, mas também permitir que esta consciência se traduza em vontade de realizar a cidadania terrena.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Está chegando o novo livro!!


Em breve estarei divulgando aqui os detalhes do novo livro que organizei O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil - com a palavra o ilustrador, Ed. DCL, que será lançado este ano. Posso adiantar que participam dele alguns dos nomes mais expressivos da ilustração no Brasil e em Portugal.
A imagem acima, que foi enviada por e-mail e não está no livro, é da Cristina Biazetto, uma das participantes desse projeto.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Take a seat...tudo pela leitura!

Recebo de Galeno Amorim a informação de que o designer holandês Jelte van Geest inventou uma cadeira que acompanha o leitor desde sua entrada na biblioteca. Basta passar o cartão de usuário com a senha magnética ou o código de barras. Realmente, tudo pela leitura. Confiram.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Comentário Geral!


A partir da próxima quinta-feira, dia 31, começa a participação fixa do Helênio, meu marido, no programa Comentário Geral da TVE Brasil apresentado por Larissa Prado, e que vai ao ar todas as quintas-feiras, às 22 horas. O programa se desenvolve a partir de uma palavra-tema e vários especialistas falam sobre ela. O Helênio estará sempre, no início do programa, falando da etimologia da palavra escolhida.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Homenagem quae sera tamen!

Martin Luther king Day


Hoje, 21 de janeiro, é feriado nos EUA em homenagem a

Martin Luther King.


Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos. Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.
Martin Luther King

Fiz estas fotos em setembro de 2007, no Museu da Escravatura em Luanda.

Quem somos nós?

Somos descendentes de escravos. Somos a prole de homens e mulheres com dignidade e honra duma história rica e nobre. Mas somos também os herdeiros de um passado doloroso de exploração. Eu não me envergonho disso. Envergonho-me, sim, daqueles que nos fizeram escravos.
Martin Luther King


De Luanda sairam aproximadamente oito milhões de escravos.




sábado, 19 de janeiro de 2008

Langage et Discours em português


Acaba de ser publicado pela ed. Contexto, com a organização de duas amigas minhas, Aparecida Lino Pauliukonis (UFRJ) e Ida Lúcia Machado (UFMG), o Linguagem e Discurso, do teórico francês Patrick Charaudeau. É dele o conceito de contrato de comunicação, que aplico à literatura infantil e juvenil na minha tese de doutorado, O Contrato de Comunicação da Literatura Infantil e Juvenil, publicada pela ed. Lucerna e que agora sairá pela Ed. Nova Fronteira.

Para os que não lêem francês essa tradução é um achado, pois esse livro é uma referência para os estudiosos da Análise Semiolingüística do Discurso.
À frente de uma equipe de tradutores de Minas e do Rio estão a Ângela Corrêa e a Ida Lúcia. Todos pertencem ao CIAD - Círculo Interdisciplinar de Análise do Discurso da UFRJ e UFMG que é ligado ao CAD - Centre d'Analyse du Discours, de Paris.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Ponte Vecchio, Bach e Sarah Chang

Ponte Vecchio - óleo por Gordon Galiano

Hoje está chovendo aqui no Rio. O verão ficou momentaneamente com cara de inverno. Lembrei-me dos dias em Florença, da "Ponte Veccio" e do violonista tocando Air on the G String . Era quase noite quando fui atraída pelo som. Fiquei alí parada sentindo. A partir daí, durante todo o tempo que fiquei em Florença, essa música ficou comigo. Voltei a ouví-la em situação semelhante na Place des Vosges, em Paris, num dia igualmente chuvoso, em que um grupo de músicos, a executava. Com Sarah Chang revivo este momento.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Surpresa!

Ontem postei um texto do meu amigo Gustavo e hoje fico sabendo que postaram um meu. Foi uma palestra que fiz na Academia Brasileira de Letras com o título: "A Maioridade da Literatura Infantil". Quem quiser ler, o endereço é: blog.cancaonova.com/sergiofernandes/tag/literatura

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O Caso do Professor de Mímese

Gustavo Bernardo, além de grande amigo, é escritor, crítico e professor da UERJ. Ele é responsável por um dos grandes momentos do livro que organizei: O que é qualidade em Literatura Infantil e Juvenil - com a palavra o escritor. Reproduzo aqui um de seus textos: "O Caso do Professor de Mímese".


Era uma vez um professor de mímese. Esse professor é um velho camaleão sentado sobre a árvore onde funciona a escola de camuflagem. Ele mostra aos alunos como ficar da cor de uma folha verde, e depois exige que os alunos façam o mesmo. Dois alunos obedecem, mas o terceiro fica roxo. O professor se irrita e mostra painel no qual um camaleão roxo atrai um gavião.




De repente todos escutam um pio lúgubre: é o gavião! O mestre esconde o painel e fica verde; os dois alunos aplicados o imitam. O mau aluno se apavora e tenta acompanhá-los, mas fica amarelo de medo e se destaca da paisagem. Ele olha para baixo da árvore, encontra uma superfície amarela e pula nela para se proteger. Consegue se camuflar, mas primeiro se torna amarelo para depois encontrar superfície daquela cor. Ironicamente, o camaleão relapso cai em cima do teto amarelo de um ônibus escolar, que o leva para a cidade. Quando chega lá o réptil salta na calçada; um pintor o encontra. O bicho tenta se camuflar mas só consegue adquirir uma cor berrante. O pintor, impressionado, o pega na mão e o leva para o ateliê, onde o coloca sobre uma mesa manchada de muitas tintas. O pequeno animal vê um estilete cravado na madeira. Assustado, faz novo esforço para se camuflar, mas fica com a pele azul e branca. O pintor, admirado, começa a pintá-lo. Na cena seguinte o pintor, com o camaleão colorido no ombro, comemora a exposição das suas pinturas, todas com o bicho como tema. Nos quadros o camaleão relapso faz o contrário do que ensinava seu professor: ele se destaca do fundo e mostra-se exuberante.



Em 1961, nascia na Inglaterra Diana Spencer. Com 18 anos, começou a namorar com o herdeiro do trono britânico. Em 1981, o príncipe e a plebéia casaram-se em Londres, em cerimônia acompanhada pelo planeta. No Brasil, milhões viam as imagens e se comoviam às lágrimas. Não vivíamos sob uma monarquia, mas pouco importava: um conto de fadas, com o príncipe e a princesa, era transmitido pela televisão. Charles e Diana tiveram dois filhos. A princesa torna-se uma referência afetiva para o povo inglês. Esbanjando fotogenia e senso de oportunidade, Diana praticava obras de caridade e conversava com o povo. O casamento de conto de fadas, porém, não ia bem. Cresciam os rumores sobre a traição de Charles. No final de 1992, o casal se separa. No longo processo de divórcio, Diana perde o tratamento de Alteza Real e ganha 180 milhões de libras esterlinas. Em 30 de agosto de 1997, voltava de um jantar em Paris com o namorado, o milionário Dodi Al Fayed. O motorista, para fugir da perseguição dos PAPARAZZI, dirige em alta velocidade. O carro se desgoverna: Diana e Dodi perdem a vida. Nova comoção mundial: todas as imagens eram novamente transmitidas pela televisão para o mundo. No Brasil, milhões de pessoas viam as imagens e se comoviam às lágrimas. Não éramos ingleses, mas que importava: tratava-se de uma boa história de amor, traição e morte. Acrescia-lhe ingrediente extra: os vilões da história pareciam ser os próprios homens dos MEDIA, encarnados nos fotógrafos PAPARAZZI. A cobertura televisiva não disfarçava o constrangimento. O Príncipe Charles abandona o protocolo e corre a Paris. A Rainha Elizabeth II, no entanto, que nunca aceitou Diana e sua intimidade com as pessoas do povo, se esconde atrás de comunicados lacônicos. A Rainha-Mãe assume o papel que faltava: o da Madrasta.

A história do camaleão berrante aparece no desenho animado dirigido por Cassidy Curtis, chamado The art of survival. O desenho, com três minutos de duração, foi realizado em 1998. Para sobreviver camaleões se mimetizam com o ambiente e desse modo fingem que não existem. Os camaleões inspiraram parte das teorias vigentes da ficção, segundo as quais a obra deve representar tão bem a realidade que com ela se confunda. Uma natureza-morta, por exemplo, leva o espectador a tentar pegar a maçã para comer. Todavia, uma natureza-morta não o é à toa: o quadro de uma maçã não pode ser uma maçã, trata-se de outra coisa. Como diria René Magritte debaixo de um cachimbo pintado, CECI N'EST PAS UNE PIPE - "isto não é um cachimbo". Lembrava Magritte de Diderot, que antes dele escrevera um conto intitulado: CECI N'EST PAS UN CONTE. No entanto, essa outra coisa - nem maçã nem cachimbo nem conto - é real também. Ela nos oferece uma outra realidade que às vezes faz tremer aquilo que vínhamos chamando de "realidade". O camaleão trêmulo remete a uma suspeita sobre a arte que, por sua vez, remete à suspeita que a arte levanta sobre a realidade mesma. O camaleão sobreviveu fazendo o contrário do que mandava o professor. Desse modo, deixou implícita uma outra teoria da ficção que, para além de reproduzir o real, recria-o. Na literatura, a mímese pode implicar a produção de um "efeito de real", como quando o escritor se preocupa em colocar os personagens dirigindo automóveis em ruas que de fato existem. Mas a mímese também implica a geração de uma espécie de bruma que desrealiza o real e, assim, cria um novo real. Como lembra Luiz Costa Lima: "a MÍMESIS, se ainda cabe insistir, não é imitação porque não se confunde com o que a alimenta" [Costa Lima: 45]. Na concepção de Dirce Riedel, a literatura tem a realidade não por trás, mas diante de si. Por ser doadora de sentido, a imaginação literária transforma um real preexistente no real pensado que só pode existir, ou acontecer, através dela [Riedel: 78]. No mundo "real", consideramos verdadeiro que Napoleão Bonaparte tenha sido morto em Santa Helena no dia 5 de maio de 1821. Contudo, historiadores mantêm a mente aberta para admitir nova data para a morte de Napoleão, caso novos documentos provem o contrário do que se sabia. O mundo criado pela mímese, no entanto, é diferente. No mundo da ficção, Sherlock Holmes é solteiro e não pode não ser, assim como Super-Homem é Clark Kent e não pode não ser. Os exemplos são de Umberto Eco. Para ele os textos ficcionais, à diferença do mundo e ainda quando ambíguos, explicitam uma margem clara de certeza [Eco: 13], conduzindo-nos a paradoxo interessante: a ficção desrealiza o real para criar um novo real mais seguro, portanto "mais real", do que aquele que se encontrava no ponto de partida. O real ele mesmo treme, como o camaleão tremia de medo.


A fábula se apresenta com a força de um fato, mas alguns fatos têm força de fábula. A história de Diana Spencer é real, mas o mundo a acompanha como se fosse ficção, vivendo-a com a intensidade catártica de uma história inventada. A realidade mesma é estranha. Diana morre em 1997. David Lodge escreve no ano seguinte uma peça de teatro que alude à sua morte, transformando-a em 1999 na novela Home truths, traduzida no Brasil como Verdades secretas. A narrativa fala da difícil relação entre a fábula e o fato. Fanny Tarrant, personagem de Lodge, é uma jornalista feroz. Ela entrevista o roteirista Samuel Sharp, expondo a sua vaidade e o levando ao ridículo. Sharp, ofendido, recorre ao amigo de infância, o escritor Adrian Ludlow. Adrian organiza antologias e vive dos direitos de romances antigos. Por vinte anos, guarda um segredo: parou de escrever porque não ganhou certo prêmio literário. Como sabe que Fanny também deseja entrevistar Adrian, Samuel pede ao amigo que prepare uma armadilha para Miss Tarrant: grave escondido a conversa para escrever depois um artigo devastador que humilhe a jornalista. Na entrevista, no entanto, Fanny e Adrian quase têm um caso. São interrompidos por Eleanor, mulher do escritor, que, ofendida, acaba revelando o segredo do marido. Logo se arrepende e lhe pede que não publique, mas Fanny diz: você sabia o que eu faço para viver. Desalentada, Eleanor concorda: YES, YOU DESTROY PEOPLE'S LIVES - "sim, você destrói a vida das pessoas", insinuando-se na casa delas, seduzindo-as com observações elogiosas e traindo-as a seguir [Lodge: 91]. O final mistura ficção e realidade. A jornalista está viajando de férias para a Turquia, quando escuta no rádio a notícia da morte de Diana. Ela fica ao mesmo tempo comovida e desesperada: naquele dia saía no jornal tanto a sua entrevista com Adrian quanto um artigo sarcástico, também seu, sobre Diana. Se na entrevista ela revela o segredo de Adrian, no artigo ridiculariza a ambigüidade da Princesa: SHE WANTS TO HAVE IT BOTH WAYS - "ela quer ter os dois mundos", acalentando bebês famintos sob os joelhos e divertindo-se no iate de Dodi [Lodge: 129]. Fanny abandona a viagem e tenta voltar. Perde-se no caminho e acaba parando na casa de Adrian, onde se encontram também Eleanor e Samuel. Eles não sabiam ainda da morte de Diana. A jornalista diz a Adrian que não se preocupe, naquele dia ninguém vai ler a entrevista, mas todos lerão seu artigo desastrado. Fanny sai da casa. O trio de amigos está estupefato. Adrian comenta: IT'S SO INCREDIBLY POETIC, ISN'T IT? LIKE A GREEK TRAGEDY. YOU DON'T EXPECT LIFE TO IMITATE ART SO CLOSELY [Lodge: 131]. Em português: "Isso tudo é tão inacreditavelmente poético, não é? Como se fosse uma tragédia grega. Você não espera que a vida imite a arte tão de perto". Diana, perseguida pelos PAPARAZZI, as Fúrias contemporâneas, morre com seu novo amante, deixando simétricos o amor e a morte. Eleanor fica assustada com Adrian: MUST YOU TURN EVERYTHING IN LITERATURE? - "você precisa transformar tudo em literatura?" [Lodge: 132]. Mas Eleanor é uma personagem literária que pergunta ao marido, um escritor ele mesmo outro personagem literário, se é preciso transformar tudo em literatura: a ficção engole a ficção, uroboricamente. Os personagens passam a falar da catarse que a nação estaria vivendo naquele momento. Sentam-se juntos para ver a cobertura da televisão, esquecidos das discussões anteriores. Na tela, o locutor também chora. O jornal com a entrevista chega, mas não tem mais importância.


A história de Diana, combinada ao romance de David Lodge, nos leva de volta ao fracasso do professor de mímese, mostrando que uma teoria da ficção, ainda que sempre incompleta, talvez seja necessária não somente para se lidar melhor com os textos ficcionais, mas também para se lidar melhor com aquilo que chamamos de realidade.

Referências
COSTA LIMA, Luiz. Mímesis e modernidade: formas das sombras. São Paulo: Paz e Terra, 2003. RIEDEL, Dirce Côrtes. Metáfora, o espelho de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1974. ECO, Umberto. Sobre a literatura. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2003. REUTER, Yves. A análise da narrativa. Tradução de Mário Pontes. Rio de Janeiro: Difel, 2002. LODGE, David. Home truths. London : Penguin Books, 1999.

domingo, 13 de janeiro de 2008

ALOUETTE, GENTILLE ALOUETTE!!!


Quem não conhece esta "alegre" canção que fala de uma cotovia?

Lembro que eu era obrigada a cantá-la nas fastidiosas aulas de Francês de Madame Joséphine. Tinha então onze anos. Fico tentando imaginar o que se passa na cabeça de um professor que põe uma turma de crianças pra cantar, "alegremente", uma canção dessas. Mas eles o fazem, ainda hoje.

Confiram a "letrinha"...

Alouette, gentille alouette,
Alouette, je te plumerai.
Je te plumerai le bec, je te plumerai le bec,
Et le bec, et le bec, Alouette, Alouette !
(refrain)
Je te plumerai les yeux, je te plumerai les yeux,
Et les yeux, et les yeux, et le bec, Alouette, Alouette !
refrain)
Je te plumerai les yeux, je te plumerai le cou,
Et le cou, et le cou, et le bec, et les yeux, Alouette, Alouette !
(refrain)
Je te plumerai les yeux, je te plumerai le ventre,
Et le ventre, et le ventre, et le cou et le bec, et les yeux,
Alouette, Alouette !
(refrain)
Je te plumerai les yeux, je te plumerai le dos,
Et le dos et le dos et le ventre, et le cou et le bec,
et les yeux, Alouette, Alouette !
(refrain)
Je te plumerai les yeux, je te plumerai les ailes,
Et les ailes et les ailes et le dos et le ventre,
et le cou et le bec, et les yeux,
Alouette, Alouette !
(refrain)
Je te plumerai les yeux, je te plumerai la queue,
Et la queue et la queue et les ailes et le dos et le ventre, et le cou et le bec, et les yeux,
Alouette, Alouette !
(refrain)


Agora, se a depenada alouette pudesse falar, o que será que diria dessa musiquinha?



quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Mostra Internacional do Filme Etnográfico


Desde o dia 8 de Janeiro, a Fundação Casa de Rui Barbosa está promovendo, em seu auditório, a reapresentação de uma seleta da programação da 12a Mostra Internacional do Filme Etnográfico, com exibições às terças e quintas-feiras, às 16 horas, e entrada franca.

O festival apresenta as mais recentes produções de filmes e vídeos documentários, incluindo produções clássicas e recentes. O projeto é coordenado pela antropóloga Patrícia Monte-Mór e pelo documentarista José Inácio Parente. Vale a pena conferir.

15.01, terça-feira, às 16h

A dura vida de uma vida fácil- Paulo Seussett, 19 min., Brasil, 2006. Documentário sobre prostituição, mostrando o ponto de vista das trabalhadoras do sexo. Nesse filme elas falam como começaram, dos seus sonhos de infância e dos seus sonhos atuais, o que fazem para encarar a noite, do preconceito que sofrem e se gostariam que suas filhas seguissem pelo mesmo caminho.

Suzy Brasil - A deusa da Penha Circular, Renata Than, 20 min., Brasil, 2007. Suzy Brasil, a drag queen que hipnotiza platéias com seus shows em boates no Rio de Janeiro. Marcelo, o pacato professor de biologia do ensino médio. Ambos moradores DA Penha Circular, coincidência?

Sobre Rodas Brasil, Sérgio Bloch, 52 min., Brasil, 2007. Por um longo período o homem carregou seus pertences sobre os ombros. Com a invenção da roda, há cerca de 7 mil anos, a civilização acelerou enormemente seu desenvolvimento. Hoje, seria inconcebível o mundo sem este tão simples e perfeito objeto. Sobre rodas Brasil retrata o cotidiano de personagens que, puxando, empurrando ou pedalando algum veículo, ganham a vida pelas ruas de diversas cidades brasileiras.

17.01, quinta-feira, às 16h

Zabumba- Marcelo Rabelo, 42 min., Brasil, 2000 . Em Canudos Velho, sertão da Bahia, região onde aconteceu uma guerra no século 19, a cultura popular tem se tornado um dos elementos que remetem às suas origens. A tradição da Zabumba, como é também conhecida as bandas de pífanos na região, é preservada por quatro irmãos que juntos mantêm viva a memória de seus antepassados. Quiquio, 19 anos, flautista e líder do grupo, sai em busca de suas raízes, dialoga e visita parentes, seus costumes, histórias, músicos jovens e mestres em outras localidades DA região.

Margem- Maya Da-Rin, 54 min., Brasil, 2007. Durante dois dias e três noites uma embarcação navega lentamente pelo rio Amazonas, partindo da fronteira do Brasil com a Colômbia em direção à cidade peruana de Iquitos. A margem se revela diante da câmera à medida que os passageiros divagam sobre um território de múltiplas feições e em constante transformação.

22.01, terça-feira, às 16h

O canto das canoas, Priscilla Ermel, 25 min., Brasil, 2006. Sob o olhar de Seu Ditinho, mestre cirandeiro e construtor de canoas, a tradição da ciranda, performance que resume, em seus versos, cantos, e danças, a essência do ser caiçara. Assim, participamos da perspectiva aprendiz do menino Albert, para quem o mestre cirandeiro conta sua vida e arte.

Pïrinop, meu primeiro contato- Mari Corrêa e Karané Ikpeng, 83 min., Brasil, 2007. Em 1964, os índios Ikpeng têm o seu primeiro contato com o homem branco numa região próxima ao rio Xingu, no Mato Grosso. Ameaçados em seu território por invasões de garimpeiros, eles são transferidos para o Parque Indígena do Xingu, onde ainda vivem. Mas os Ikpeng sofrem com o exílio de suas terras ancestrais e hoje lutam para reconquistá-las. Unindo o passado ao presente, os Ikpeng evocam em um misto de tristeza e humor, as preciosas lembranças daqueles momentos e interpretam episódios que os brancos e suas câmeras não presenciaram. Relatado do ponto de vista dos próprios índios, o documentário desloca nosso olhar para um outro enfoque, numa inversão de papéis onde o “outro” somos nós.

24.01, quinta-feira, às 16h

Baque Solto - Suiá Chaves e Tatiana Gentile, 26 min., Brasil, 2007. Zona da Mata Norte e Zona Metropolitana de Pernambuco. É Carnaval. Preparo, estrada, esperas, apresentações. O filme acompanha o Maracatu de Baque Solto Leão de Ouro de Condado durante os três dias de Carnaval.

L.A.P.A- Emilio Domingos e Cavi Borges, 75 min., Brasil, 2007. Tradicional bairro boêmio do Rio de Janeiro, reduto de sambistas no início do século 20, o bairro da Lapa também serviu como ponto de encontro do RAP nessa cidade, no final do mesmo século (anos 90). O filme mostra, através de alguns MCs, o cotidiano e o desenvolvimento dessa cultura.

29.01, terça-feira, às 16h

O evangelho segundo seu João- Eduardo Souza Lima, Leonardo Gomes e João Moraes, 17 min., Brasil, 2006. Não se trata de um filme sobre a Folia de Reis, mas sobre um homem santo de 74 anos que comanda folias há 56 anos. Ele é analfabeto, mas tem a função de ser um sábio que não pode deixar perguntas sem respostas. Isso o leva a criar parábolas e estruturas de abordagem totalmente peculiares e inéditas.

Batatinha e o samba oculto da Bahia- Pedro Abib, 48 min., Brasil, 2007. Documentário sobre o famoso sambista baiano Oscar da Penha – o Batatinha – já falecido e que deixou uma obra comparável aos grandes mestres do samba do Brasil. Busca mostrar também alguns outros sambistas da velha guarda da Bahia, infelizmente pouco conhecidos do grande público. A narrativa se utiliza de elementos de ficção, através da participação de 3 atores interpretando universitários que saem em busca de informações sobre Batatinha, para cumprir uma tarefa de realizar um documentário sobre o grande mestre. Conta com depoimentos de Paulinho da Viola, Maria Bethânia, Riachão, Edil Pacheco, Nelson Rufino e outros grandes compositores do samba brasileiro.

A Bença- Tarcísio Lara Puiati, 52 min., Brasil, 2006. Mãe Enedina, 90. Mãe Maria, 74. Mãe Mimi, 75. Um recorte do cotidiano de três senhoras do candomblé na Baixada Fluminense. A passagem do tempo, a terceira idade, o respeito mútuo entre os jovens e os mais velhos no candomblé, a crença no culto de orixás, são alguns dos temas desse documentário da série DOCTV III.

31.01, quinta-feira, às 16h

Em (si) mesma, Andréa Barbosa, 24 min., Brasil, 2006. Michele e Dalva são pacientes em desinternação progressiva no Manicômio Judiciário de Franco da Rocha. Margarida é psicóloga na mesma instituição. Três mulheres ligadas pela fotografia, instrumento que sela uma relação de respeito e desejo pela vida. Este filme recebeu o Prêmio Estímulo de Curta-Metragem da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

O profeta das águas- Leopoldo Nunes, 83 min., Brasil, 2005. Em 1966, o governo militar brasileiro decide iniciar a construção da hidrelétrica de Ilha Solteira, que inundaria toda a região de Rubinéia, na fronteira de São Paulo com Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. Em outubro de 1970, o líder religioso Aparecido Galdino Jacintho rezava com seus fiéis no seu templo, em Rubinéia, à espera do Exército Nacional, que se juntaria ao Exército da Força Divina. Juntos, partiriam rumo a Mato Grosso para curar, pregar a paz e praticar a justiça, além de impedir a construção da barragem. Enfim chega a força militar, conforme a profecia, mas para reprimir os fiéis com violência brutal. O filme resgata documentos históricos de arquivos das justiças comum e militar, arquivos de hospitais psiquiátricos e localiza diversas pessoas que vivenciaram o episódio.